miércoles, 8 de julio de 2020

A figura de sal

Hoje deixámos a costa pacífica e partimos para as margens do mundo,
Se este mar contasse lágrimas,
Espero que não conte as tuas,
De tanto esperar.

Há tantas mortes num entardecer,
É fácil pensar que embarcamos para o fim.
Há tantas formas de chegar,
Há tantas formas de estar,
Mas infelizmente n
ão encontro a minha,
Sem ti.

No meio deste mar de lágrimas,
Há uma ilha pequena que nos recebe
Com amor materno:
Abre sua costa
 Como a mãe abre os braços.

Ai, durmam infantes,
Durmam, mortais,
Durmam agora,
Durmam ao colo da mãe,
Porque a morte algum dia chega.

Há uma misteriosa estátua de sal fitando para Leste.
Será Edith a da curiosidade?
O que é que olhas, Edith?
A nossa natureza é curiosa,
Crime e castigo para quem quiser ir além.


As aves rodeiam a frota,
O Corvo paira sobre o caldeirão,
Ir para Leste?
Ir ao Oeste?
A estátua manda direção...

Vão e morram bem!
Em nome de Jesús!
Em nome de Deus,
Vão além!

Faltam lágrimas para encher esta dor.



miércoles, 11 de marzo de 2020

Carta de Zeporoa

Leio e releio a tua carta, leio e releio os meus sentimentos nus...

Leio e sinto aquela febre da primeira vez, aquela raiva, aquele sorriso e tu, no final da viagem

Ou será que tu és a viagem?


"Para ti, amado viajante:
Um abismo etéreo nos separa, não temas passar anos imerso em tuas aventuras.
Aqui estarei eu, tua Itaca, esperando, suspirando teu retorno aos meus braços. Volta quando quiseres, mas, se me encontras desolada e ocupada, não me julgues, minha vigília por ti continua intacta.

Eu sei e tu sabes que aquí estarei para quando quiseres descansar do teu velejar incessante, quando quiseres repousar, fechar os olhos e voltar ao começo. Voltar a levantar a ancora. Quando quiseres suspirar, morrer e renascer.

Sê livre. Sou feliz amando-te e sabendo que és livre, mas não te enganes, estás preso entre minhas linhas, nos meus versos. Teu nome pertence aos meus lábios que pronuciam em sonhos, teu aroma pertence ao meu corpo pois com ele acordo cada madrugada. Eu fecho meus olhos e encontro os teus, por acaso te acontece o mesmo? Por acaso essa angústia do teu peito por não me ter, acalma qualquer ninfa ou sereia do caminho?

Tu sabes que eu não sou teu destino, sabes que sou teu caminho. Sabes que, em mim, encontras a paz que satisfaz tua sede constante. Nos meus braços está teu abrigo, entre minhas pernas percebes o sentido da vida.

Dizer “te  amo” é pouco.

Vá e depois volta para mim.

Vá... e volta sempre que quiseres.

Zeporoa."
E voltarei a ti...


domingo, 16 de febrero de 2020

Além do Bojador


Que me ensine de saudades aquele que nunca viu a luz sair,
Que me ensine de saudades aquele que atravessou o mar,
E nunca regressou ao berço,
Aos braços.
Que me ensine de tristeza aquele que calou e nunca disse,
 Aquele que nunca soube de um beijo,
Aquele que não sentiu a crescente morte se aproximar,
A respiração inerte e desnecessária.

Que me ensine de alegria aquele que nunca sofreu,
Há realmente forma de andar nesta viagem sem sofrer?
Há forma de regressar ao cais sem ter passado além da dor,
O Cabo Bojador que os meus olhos enxergam.

Que me fale de vida quem já sentiu a morte passar,
Que me fale de vida que já sentiu o peso de respirar,
Quem já deixou de tentar,
Que me fale de vida que já ao mar foi afundar.



sábado, 20 de julio de 2019

"As ondas do murmúrio"


Tudo passa:

Passam as horas desta travesia,
Passam...


É uma lua que se esgota,

É apenas uma estrela que desliga,

Desfiam-se as últimas luzes no horizonte,

Só resta a tua lembrança,

A curva dos teus olhos

Em cada onda deste largo mar

O Adamastor espera cauteloso

Só sombras

Só morte é que espera,

Lá no fundo,

Espera o fatum divino.

jueves, 27 de diciembre de 2018

"Meu cais"





Somos navegantes,
Do infortúnio e outros mares,
Já antes navegados,
Somos navegadores,
Da tristeza,
E do cansaço,
Da espera.

Navegantes somos
E à deriva vamos
Neste mar de incertezas,
Do viver
E de outros naufrágios
Da nossa glória perdida,
Da glória nunca ganha.

Lá, no fundo, imagino-te,
Tranquila, sossegada, inerte
Com a calma e a paz de quem espera o regresso,
Meu cais paciente.

O teu belo riso,
Estrela do Norte,
Fim do desalento,
Motivo antigo.

Os teus braços e o teu peito,
Minha pátria amada,
Meu lar,
O regresso à calma perdida.
A Penélope tece a vida,
Enquanto o cansaço estende esta pena de viver longe. 

Penso em ti,
Vejo os teus olhos,
No brillho doutros barcos,
Eles trazem boas novas
De uma terra que achávamos perdida.

No canto das sereias
Posso ouvir a tua voz.
Calas o meu nome,
Mas cada onda lembra-te de mim,
Cada onda traz o teu perfume,
Cada onda bate o teu nome
Como estrondo gasto,
Como estrondo vazío,
Das mémorias e das glórias passadas.

É uma viagem de desalento
Não sei o que faria
Se regressasse a ti,

Cais amado,
Figura de mulher
Que me enleva
Guia-me ao Inferno dos teus beijos.

Chega o brilho,
Ó, Mensagem maravilhosa,
Deixa-me ficar nas trevas
Deixem nas trevas quem nas trevas nasceu.
Nem a luz da espada,
Nem a morte na Cruz,
Podem separar-me de ti,

Meu cais.